
por William S. Burroughs
Cocaína é a mais estimulante de todas as drogas que utilizei. A euforia concentra-se na cabeça. Talvez a droga ative diretamente certos circuitos de prazer situados no cérebro. Suponho que a passagem de uma corrente elétrica no lugar certo provocaria o mesmo efeito. O efeito pleno da cocaína só pode ser obtido através da injeção endovenosa. Os efeitos agradáveis não duram mais que cinco ou dez minutos. Se a droga é injetada na pele, a rápida eliminação anula os efeitos. Isto vale duplamente quando ela é aspirada.
O uso prolongado de cocaína provoca nervosismo, depressão; algumas vezes psicose tóxica com alucinações paranóides. O nervosismo e a depressão resultantes do uso da cocaína não se aliviam consumindo cocaína. Mas são efetivamente aliviados pela morfina. O uso de cocaína por um viciado em morfina sempre leva a injeções maiores e mais freqüentes de morfina.
II
Por desgraça, nos sistemas nervosos ocidentais, a palavra droga provoca um reflexo de temor, desaprovação e lascívia. Droga, no entanto, nada mais é do que um nome genérico de qualquer agente químico. O álcool é uma droga sedante, de ação similar aos barbitúricos; entretanto, em função de associações puramente verbais, não pensamos no álcool como uma droga, simplesmente porque é a nossa droga nacional.
O departamento Americano de narcóticos classifica como drogas tóxicas substâncias cujos efeitos fisiológicos chegam a ser opostos. A morfina é um autentico antídoto contra a intoxicação por cocaína; a cannabis é uma substância alucinógena sem qualquer afinidade química ou fisiológica com a cocaína ou a morfina. No entanto, as três são classificadas como narcóticos. E inquestionavelmente o termo 'droga' possui um forte impacto emocional na opinião pública , mesmo usado desta forma vaga, carecendo de uma significação precisa e útil. Isso é bastante ruim.